Confesso que ainda não abstraí o que aconteceu na Inglaterra. Mas achei que era necessário escrever tudo isso até para botar minhas próprias idéias em ordem.
Primeiro, é relevante fazer uma pequena digressão pessoal: eu estava em Londres há um mês. Em Londres e depois em Liverpool, onde fui apresentar um artigo em uma conferência. Amei os dois lugares e até deixo aqui algumas fotos de lambuja. Liverpool é uma graça, pacífica, respira cultura e, claro, Beatles. Londres é sofisticada, eficiente e muito viva. Liverpool é bem menos multicultural que Londres (tentem achar um taxista inglês em Londres, impossível!), mas não é o caso na Universidade. O coordenador do congresso era escandinavo (de onde não sei) e a doutoranda que me ajudou a encontrar minha sala era da Arábia Saudita. Isso é a Inglaterra.
Outra digressão pessoal: minha visão de mundo pensando como “européia” é italiana. Morei na Itália, estudei na Itália alguns meses (experiência incrível que de certa forma determinou minha escolha profissional), estive lá em outras ocasiões (como logo depois que saí de Liverpool e fui passar calor e comer bem na Toscana!), minha família mantém tradições italianas e estou de alguma forma em contato com a comunidade italiana da minha cidade. Assim, acabo adotando algumas posições de senso comum dos italianos que fazem sentido lá, mas talvez não façam tanto sentido em outros países. É o caso da imigração, que na Itália é definitivamente um problema e um problema grave, mas que talvez seja diferente na Inglaterra.
Assim, quando vi os protestos, choquei. Em Liverpool? LIVERPOOL? Pubs, restaurantes fantásticos, museus gratuitos, sem favelas, escolas fundamentais cheias de crianças com bochechas rosadas brincando? E então vi essa foto aqui que saiu no G1. Contaminada com os problemas italianos (que obviamente não tem como causa principal a imigração, mas digamos que essa não ajude muito), já pensei: “imigrantes que não querem se ajustar às regras do país para onde imigraram”.
Mas errei. A questão não é a imigração e eu definitivamente preciso parar de pensar nesses termos de conflitos culturais, essa pseudo-releitura de luta de classes que domina muitas discussões e da qual eu pretendo fugir.
A questão foi vandalismo. Vandalismo puro e simples? Um pouco. Um pouco efeito manada, coisa de psicologia social, não de sociologia (says Weber). E muita, mas muita, como dizemos aqui no interior, várzea. E quanto mais eu vejo gente dizendo que eram “jovens manifestantes reivindicando blá blá blá” (este vídeo é o mais emblemático e existem muitos blogs por aí endossando o cara), mais eu penso: existe mais um fator aí.
E esse fator é essa coisa de adular essas “políticas para a juventude”. Parece que estamos vivendo um momento no qual os jovens querem tudo, pedem tudo, não fazem quase nada e são sempre ouvidos. Muitas pessoas acham que jovem protestar, querer mudar o mundo, blá blá blá, é lindo. Muitas pessoas acham que marmanjo de 24 anos (no Brasil, talvez até 29) precisa de política especial. E jovens vão protestar pedindo mais, mais e mais pelo direito de fazer menos, menos e menos. Como assim?
Isso se chama comodismo. Acho que o Cameron e os políticos ingleses estão mais do que certos de discutirem o despejo e o fim da ajuda social a quem participou de protestos. Essas pessoas não estão pensando no que elas podem fazer pelo seu país, mas estão pensando no que seu país pode fazer por elas, parafraseando a famosa sentença. A mesma coisa ocorre no Chile com a mocinha gatinha “soy muy cool, comunista e bolivariana” organizando piquete em vez de ir atrás de estágio (a gatinha tem 23 anos, hora de começar a trabalhar, né?) E enquanto fazem isso, não chegam à raiz do problema,nem conseguem pensar nisso, que é a difícil equação entre benefícios sociais e crescimento econômico, aquela que ninguém consegue resolver.
Não sei avaliar a economia e o estado de bem estar social inglês. Sei que eles têm boas universidades, vida cultural vibrante, policiais educados, ruas limpas e trens (privatizados, oi Richard Branson) pontuais, o que já é um enorme avanço em relação a quase tudo que vemos no Brasil ou na Itália. Sei que a Itália precisava de um pouco de britanização econômica, com uma Thatcher para privatizar quase tudo e acabar com uma economia baseada em corporações de ofício do século XII (ok, funciona para artesãos de vidro de murano, mas quase todas as profissões são absurdamente reguladas e o sindicalismo é podre por lá). Sei que protestos valem a pena quando há uma classe política privilegiada que só sabe cobrar impostos e criar castas de apoio (oi Brasil). Também acho que valem a pena quando direitos individuais são negados (ex: direito ao casamento gay, merece protesto). E sei que matar imigrantes que estão lá para trabalhar, empreender e cuidar da própria vida acaba com qualquer pseudo-sentido que se queira dar aos protestos ingleses.
O texto ficou meio ilógico, estilo desabafo, mas vou repetir o que já disse aqui nesse blog: protestar por protestar é idiota. Querer obrigar o resto de um país (do mundo?) a pagar impostos para você ter cuidados especiais e privilégios (ai, manhê, fecharam meu centro cultural onde eu aprendia a batucar, faz toddy? Tenho só 25 anos, não sei fazer sozinho) é idiota. Querer inchar Estados inchados porque acha que todo mundo deveria ter direito a aposentadoria integral (quando deveria ser o oposto) é idiota. Os “jovens” de 20 e muitos anos que estão protestando em países democráticos com redes de benefícios sociais estruturadas são idiotas.
E viva a geração Y.
P.S. Para quem não sabe, eu tenho 25, quase 26 e acho que estou muito mais para tia que para jovem.
P.S. 2 Nunca tinha feito isso nesse blog, mas dessa vez vá lá: fotinho em Liverpool, no Cavern, onde os Beatles tocavam lá na década de 60, com a lady Thatcher em Londres, no Madame Toussaud, e em Siena, na Itália, que é linda.

É por causa desse tipo de idiotas que você tem a liberdade de escrever essa merda. Alienada!
ResponderExcluirAh, sim, com certeza. É realmente esse pessoal "progressista" que pede "controle social da mídia" que determinou que o paradigma democrático envolvia liberdade de expressão. Lógico, nossa, como não pensei nisso antes.
ResponderExcluirCarol, não esquenta...
ResponderExcluirEsses valentes "anônimos" morrem de inveja: são vagabundos, só estudam o mínimo, querem do Estado o máximo e não produzem pra ser "gente", mas coordenador de movimento social patrocinado pelo governo. De preferência, o deles. Como são do tipo desprezível, deixam esses recadinhos idiotas em blogs de qualidade pois não podem escrever isso nos blogs patrocinados com dinheiro público pois lá só há elogios pra baderna. E nós que somos "alienados"... KKKKK
"A idéia central (e pretensiosa, por que não?) é contestar o senso comum."
ResponderExcluirSeus textos são PURO senso comum. Wake up.
DFERNANDOCOSTA: Opa! tks pela visita.
ResponderExcluirAnônimo 2: Sendo comum depende do grupo de referência.
Carol, na França as coisas estão acontecendo da mesma forma e na Espanha também. Como pude vivenciar um pouco da vida francesa posso falar que lá, além do grande problema da imigração semelhante ao da Itália, os jovens estavam extremamente acomodados no pré - crise européia, onde o Estado provia o bem estar deles, sem qualquer contrapartida. Muitos jovens franceses simplesmente paravam de estudar ao final do ensino médio e iam pra empregos bons, já que com a bonança econômica o emprego era farto e a qualificação exigida era baixa. Agora, instalada a crise financeira dos Estados europeus, os empregos bons sem qualificação exigida sumiram e os jovens franceses, ao contrário de nós brasileiros que sempre tivemos que nos virar,culpam somente o governo pela falta de oportunidade.
ResponderExcluirConcordo demais com as suas idéias. E continue sempre escrevendo!!!!
Um nativo de lá que conheci pela net explicou os eventos recentes através do seguinte aforisma:
ResponderExcluir- Give a man a fish, and feed him for a day.
- Teach a man to fish, and feed him for a lifetime.
- Give a man a free fish every day, and he will riot for more fish.
Boa, Anônimo.
ResponderExcluirFá: Oie.
Na última foto no museu, com aquele óculos, você está com cara de tia mesmo. Mas uma tia muito bonita, diga-se de passagem.
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