quarta-feira, 30 de março de 2011

Bolsonaro é um sintoma, não uma causa

Eu acho o Bolsonaro um idiota. Sou daquelas pessoas que não conseguem ter empatia com gente como ele (aliás, sou péssima em empatia). Simplesmente não consigo entender como alguém pode lutar contra o que adultos responsáveis fazem em suas vidas privadas, ou seja, não consigo conceber homofobia. Também não consigo entender racismo. Eu sempre separei as pessoas entre gente legal/bem-humorada/inteligente e o resto do mundo. Ah, e tenho certo preconceito contra quem não gosta de comer, pois, como diriam os imigrantes italianos das antigas, a pessoa fica sem “viço”.

Mas vamos sair das divagações egocêntricas e retornar ao assunto: Bolsonaro é um idiota. Mais idiota que a Sarah Palin? Mais idiota que Jean Mari Le Pen? Não sei, mas é daí para baixo. Então, é óbvio que faz bem trollar o Bolsonaro (e olha que eu odeio CQC).

Entretanto, existem alguns problemas quando uma figura como ele ganha espaço para dizer as asneiras que quer. O primeiro o tio Rei já apontou muito bem nesse texto aqui: um cara como esse presta um desserviço aos que têm alguns pontos de vista em comum com ele. Por exemplo, a pessoa pode ser contra cotas nas universidades por “n” bons motivos: porque não vai resolver o problema da educação pública fundamental e média, porque pessoas pobres não consideradas negras pelos comitês julgadores dessas universidades ficarão de fora, porque os critérios para definir se alguém é negro ou não é não são claros (é “identidade cultural?” É ter um antepassado negro? Como comprova isso?), etc. Mas aí vem um cara desses e fala que não andaria em um avião pilotado por um cotista e.... desanda. Todo mundo que é contra cotas acaba sendo jogado no mesmo saco.

Existe um segundo problema também: uma questão maior, que é a intervenção estatal na vida dos indivíduos acaba sendo discutida somente sob uma ótica, que é a dos comportamentos e a discussão em relação à intervenção na economia some ou “fica resolvida”.

Explico - se o cara tem um pensamento radical do estilo do Bolsonaro (que chamam de pensamento de direita, ainda que o cara deva amar empresas estatais, afinal, é fã do regime militar), o cara é um demônio – nesse caso, com razão.

Mas também demonizam o cara que não é intolerante com o que as pessoas fazem em suas vidas privadas, mas gostaria de menos intromissão do estado nas suas escolhas econômicas (e nem estou falando aqui do cara que é contra QUALQUER benefício estatal, hein, até porque não costumo ser fã de radicalismo em geral). Mas se o cara tem um pensamento parecido com o que podemos chamar de direita econômica (mais tendência ao livre mercado, menos impostos, reforma na previdência e legislação trabalhista, etc.), o cara também é um demônio que não se importa com “os pobre”, o que é uma bobagem sem tamanho, pois ser de direta economicamente é simplesmente aceitar o fato de que recursos são finitos e que sabemos empregar nosso dinheiro melhor do que alguns burocratas que estão em Brasília porque são amigos do Sarney (pelo menos é a forma mais simplificada para definir a coisa, na MINHA compreensão).

Então fica o seguinte acordo tácito: intervenção na vida sexual das pessoas não pode (concordo), mas defender que alguns cargos públicos ganhem salários exorbitantes para não se submeterem a avaliações de desempenho, defender que essa aberração chamada aposentadoria integral exista (mesmo sabendo que quem paga mais é o fulano que tem menos dinheiro, porque imposto nesse país é tudo regressivo), defender que exista imposto sindical, achar que fulano tem direito de depredar propriedade alheia e não ser punido (oi MST), se o achar que a liberdade de expressão deve ser relativizada em defesa dos “direitos humanos”, entre outras baboseiras, aí pode. Porque isso tudo é o Estado bonzinho aplicando o dinheiro das pessoas melhor do que elas mesmas. Aham.

Só para constar de novo: LONGE de mim defender alguém como o Bolsonaro. Por mim, esse cara não seria eleito nem como responsável de uma sala de aula para levar os materiais para o xérox. Mas se vamos combater alguma coisa, vamos combater o problema em todas as suas dimensões: que nem Bolsonaros cuidem da vida pessoal alheia e que nem Guidos Mantegas possam sair aumentando impostos e trocando diretores de empresas privadas. Está na hora de privatizar a nossa própria vida – que saia da teia estatal e seja (pela primeira vez?) nossa propriedade.

6 comentários:

  1. Concordo com cada vírgula do seu texto, mas temos um detalhe mais agravante ainda, Carol: as pessoas que votaram nele e o elegeram como "representante do povo". Pessoas que tem o mesmo pensamento e se escondem quando a "bomba explode". Isso é o que me deixa mais apreensivo: existir na sociedade brasileira pessoas que mantém laços estreitos com essa linha de pensamento. Bolsonaro realmente é um sintoma e a causa está no meio de nós. O.o Assustador, porém verdadeiro.

    ResponderExcluir
  2. Gosto de seus comentário sutis no meio do texto.
    E concordo com o que está escrito, já que diversas vezes falamos sobre essas coisas.

    T amo

    ResponderExcluir
  3. Carol, você sabe que eu sou seu fã. Mas desta vez acho que você exagerou! Bastava você ter escrito só isso: Eu acho o Bolsonaro um idiota.
    Pronto!
    Então nós, seus leitores, entrariamos aqui e comentariamos: "Eu também".
    Mas não! Você foi além e EXPLICOU porque ele é um idiota. É por isso que eu corro pra ler você!

    ResponderExcluir
  4. Bolsonaro é um idiota? Pode ser, mas não de todo.

    Hoje em dia há uma máfia para considerar tudo como "preconceito". E, sinto muito crianças, muita coisa não é.

    Assim se dá a impressão de que apenas a tal "esquerda" luta (essa palavra também merece aspas) pelo direito dos gays, das mulheres, dos negros. Todo aquele que não vota no PT não apenas é multi-milionário: TODOS eles têm olhos azuis. E cabelos lisíssimos.

    Honestamente, quase tudo o que se faz é pegar o discurso do Lula é multiplicar por -1. O discurso do Lula não funciona porque está apartado da realidade, não só por estar errado. Nem multiplicando por -1 dá certo.

    É errado dizer que dará uns tapas no filho se ele ficar "meio gayzinho"? É. É errado dizer que prefere um filho hetero a um filho homo? Sinto dizer, mas não. Pode ser feio, mas não é errado. Se eu prefiro ter um filho gótico a um filho hippie, alguém pode preferir um filho hetero a um filho homo. SEM SER HOMOFÓBICO POR ISSO. Ainda mais por ser um fator social – posso não querer um filho que vá sofrer perseguição, por exemplo.

    Toda hora que vejo o nome de Bolsonaro ele está associado à homofobia. Em nem 10% dos casos isso se aplica (aliás, além desse caso dos tapinhas, não me lembro se se aplicou ALGUMA VEZ).

    E aí, não tem preconceito? Bolsonaro defende muita coisa estatal, mas sendo militar, o foco de sua atividade como político (que não precisa ser a materialização de TODAS as suas crenças, uma por uma, pois tirando os casos de Hitlers e Fidéis da vida, isso nunca é possível) foi o combate à luta armada da esquerda.

    "Ah, pois ele defende a ditadura militar!!" – contra essa luta armada para implantar o comunismo cubano? Ora, até eu defendo. Mesmo um filho da puta como Geisel, o maior criador de estatais do planeta, está longe de ter causado problemas a vida de 2% do que um Fidel Castro causou.

    Não tem nenhum preconceito contra militares no Brasil, não? Tudo o que é militar é ruim no Brasil. Ser militar, e defendê-los das acusações cretinas que a esquerda lhe faz até hoje (tá rolando "Ato Contra o Golpe Militar de 1964" hoje mesmo aqui em Sampa), é ser escroto.

    Ok, ok. A questão é que nunca vi nem sequer o Bolsonaro defendendo a volta da ditadura. O que deixa claro POR QUE, afinal, existiu uma ditadura (nenhum esquerdista tem coragem de fazer essa simples pergunta, hein?). E o próprio Bolsonaro acabou com o PT quando Dirceu alegou que queriam abrir os arquivos do Araguaia, em tom de ameaça. Ora, o Bolsonaro, e os militares, adorariam isso – e o Executivo federal tem todo o poder pra isso. Por que não abriu, se era algo que iria melhorar a visão histórica? É fácil deduzir: porque iria mostrar o que foi de fato a guerrilha de esquerda.

    Bolsonaro é um idiota? Pode ser, Carol, pode ser realmente estúpido ter um pai que te dá uns tabefes se você tem hábitos delicados. Mas persegui-lo por isso? Eu também não namoraria os filhos da Preta Gil. Ou Afrodescendenta Gil, para não cair no papo de racismo junto.

    ResponderExcluir
  5. Flávio,

    Ok, que Geisel é melhor que Fidel, ninguém discute. Mas ser estatizante hoje é péssimo.

    E olha, longe de mim querer calar o Bolsonaro. Ou a Preta Gil (mesmo nível intelectual).

    Mas ele é uma figura a ser analisada e seus comentários devem ser debatidos.

    Bj

    ResponderExcluir
  6. Flávio, pesquise mais: Bolsanaro defende, sim, uma nova ditadura. Isso mesmo, uma ditadura que oprime a liberdade de expressão, na qual ele mesmo se segura. Dê uma olhada nesse artigo do Sakamoto (eu sei, mas dê uma olhada, ele mostra entrevistas do próprio bolsonaro, sendo todos declarações verdadeiras, com fontes). ABS.

    ResponderExcluir