quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Assassinato na 9 de julho

Estava preparando um texto sobre o Berlusconi e a Itália atual para o blog, mas depois de ontem mudei completamente de idéia, pois passei por uma experiência muito ruim.

Para quem lê o blog (oi mãe, oi namorado) e não sabe, sou mestranda na FGV, em São Paulo.

Início da sessão desabafo. 

Estava na sala de aula, fazendo monitoria da matéria de Estratégia de Marketing, no 11º andar, pouco antes das 22:00 e ouvi um barulho. Olhei para os alunos e um falou “foi tiro”. Na hora, estava muito mais preocupada em relacionar nomes e rostos para dar a nota de participação e não prestei muita atenção. Aquela coisa: barulho estranho, mas enfim, podem ser fogos ou qualquer outra coisa. Alguns minutos depois, vem a ambulância. Olho para os alunos e digo: “foi tiro”. A aula continua, vem a discussão de um caso interessante e os alunos contribuem com suas experiências profissionais. Chego em casa e vou dormir.

Acordo hoje para pegar o ônibus e voltar para minha escaldante Ribeirão Preto e abro o site do G1: rapaz de GV morto. Outro rapaz, gravemente ferido. Ambos mais novos que eu (que tenho 25 anos). Polícia trabalha com hipótese de execução. Vem aquele soco no estômago. Quem seria? Felizmente, não era nenhum de meus colegas. Não conhecia nenhum dos rapazes. Ainda assim, aquela sensação de soco no estômago.

Eu escutei. Estava perto, 11 andares acima do ocorrido, e nem me movi. Continuei com a minha vidinha de dissertação e aulas. E um colega foi executado. EXECUTADO. Qual seria o motivo? Dívida de drogas? Problemas com a namorada? O que ele teria feito para que isso acontecesse? Mas com certeza, a coisa era séria, pois os assassinos miraram de maneira certeira, não assaltaram ninguém e cometeram um crime na 9 de julho, em um horário no qual a rua está ainda bastante movimentada.
Falo do ocorrido para o porteiro, para meus conhecidos, para o taxista que me levou até a rodoviária. Ninguém fica muito espantado. Mas eu estou espantada. Está aquela sensação: “foi perto de mim, aconteceu com alguém que, de certa forma, estava perto de mim”. E estou assustada, com medo de voltar a pé da faculdade quando já estiver escuro, pensando em como estão as pessoas que eram próximas aos garotos.

Fim da sessão desabafo.  


E aí?

Aí que mesmo com a informação do novo mapa da violência (que mostra a redução da criminalidade em SP) eu me sinto insegura. Mesmo sabendo que foi execução e que estou MENOS suscetível a ser vítima de um crime como esse, eu me sinto insegura. Por fim, mesmo sabendo que execuções acontecem todos os dias em locais distantes e socialmente vulneráveis, eu fico MUITO chocada com o assassinato de ontem. Porque eu estava do lado. Porque eu ouvi. Porque a gente só percebe que a violência existe quando ela está por perto (e isso não é ruim, é o que é, somos humanos e só sentimos empatia quando há características similares entre nós e o objeto de nossa empatia). Enfim, que as pessoas próximas a esse moço que morreu consigam forças para esses primeiros momentos, que são muito difíceis. E que os alunos e professores da FGV consigam lidar com a situação da melhor maneira possível. Nada mais a fazer, apenas lamentar.

8 comentários:

  1. Há quem diga que pra morrer basta estar vivo! Mas, se não for por doença e/ou velhice, qualquer outra morte é contra a natureza. Morrer antes dos 25a (e até mesmo dos 50, 60, 70) e ainda mais por ação premeditada de outro ser humano, é uma situação inadmissível para o nosso século de alta tecnologia e evolução da civilização. Segurança pública em grande parte do planeta é tratada sem prioridade, como também educação e saúde. A prioridade é manter o poder! Cuide-se!

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  2. A sua reação é normal. Não só a reação que vc teve na hora, como a reação que está tendo agora.

    Infelizmente, a gente tende a ficar insensível quando as coisas acontecem com pessoas "sem rosto", ou seja, aquelas que estão longe de nós, que são apenas estatística.
    Quando tudo acontece um pouco mais perto que seja, a realidade bate na porta e a gente vê que ninguém está realmente seguro.

    Eu tive essa mesma ressaca 2 vezes, e ainda hoje me incomoda lembrar dessas situações.

    Uma foi quando eu estava no Maracanã e vi as arquibancadas despencarem levando a torcida junto.
    As pessoas caindo em cascata, se agarrando umas às outras, ou tentando se agarrar ao nada, caindo como se estivessem em câmera lenta e eu ali parada, olhando, com um copo de coca-cola na mão.

    Outra foi ver a queda das torres gêmeas ao vivo pela TV, enquanto eu lembrava do frio na barriga que senti ao olhar pra baixo, quando visitei o local e estive no terraço.
    Até hoje me faz mal imaginar o desespero das pessoas que não conseguiram descer.


    A situação que vc descreve foi um ato de violência, um assassinato não é a mesma coisa que uma arquibancada mal conservada.
    Mas o choque da tragédia é semelhante. A sensação de insegurança também. E, por fim, a dura tarefa de admitir que, na maioria das vezes, não prestamos atenção nem nos importamos. :/

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  3. D.A.V.I: pois é, há descaso com segurança sim. Mas acho que esse tipo de crime (passional, digamos) é uma coisa que sempre vai acontecer, humanos são loucos.

    Milena: oi querida. Bom te ver aqui. Que cena horrível deve ter sido essa no Maracanã. Afff!

    Bj

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  4. Carol, quando eu soube da notícia, engoli à seco. Frio na espinha. Olhos arregalados. Ouvidos atentos. Mãos rápidas em portais e mais portais procurando mais informações sobre o ocorrido. Sentidos apurados para captar todos os detalhes. Só soube da notícia no dia posterior e tratei de lê-la a fundo para procurar o nome e rezando para que não fosse ninguém que eu conhecia. Mesmo não sendo alguém que eu conhecia, pela primeira vez desde que cheguei aqui, fiquei com medo de sair de casa. Sensação da pior espécie possível.

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  5. É lamentável e posso imaginar como você deve ter se sentido, Carol.
    A gente vê, lê ou ouve essas notícias e nunca pensa que o palco da cena pode estar bem perto de nós.
    Ouvir o EXATO MOMENTO da execução também é algo que nós, pessoas de bem, nunca cogitamos vivenciar. E infelizmente foi esse algo não cogitado que você viveu...
    Isso revolta, assusta, deprime.
    A sensação de impotência é igualmente grande!

    Realmente não estamos mais seguros.
    Seja grande ou pequena, nossas cidades não oferecem mais a segurança de que necesitamos.

    Abraços,

    Lucimara Souza

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  6. Também fiquei muito triste com o que houve. Estou cursando o 3o ano de Administração na FEA e também tinha bastante em comum com o garoto que morreu.
    Um dia a gente conversa sobre outros assuntos, mais alegres, eu espero.

    Beijo e Abraço
    Alex (Doug)

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  7. Maick: a boca fica seca, né?

    Lu: bom te ver por aqui.

    Alex: quanto tempo! Com certeza teremos chances de conversar sobre coisas mais alegres. Vamos combinar algo com todo mundo da sala aí em Sampa!

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  8. Belo texto de uma horrível tragédia.
    Como foi dito no texto, isso ocorre todos os dias. Porém, quando é próximo, sentimos o peso do ato.

    Te amo, se cuida!

    ps.: tem mais gente que sempre lê seu blog...

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