quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Construção de mitos, ou você quer Robert Pattinson para a presidência?

Reza a lenda que uma vez perguntaram a Benito Mussolini se era difícil governar a Itália. Numa tirada brilhante ele respondeu: “não é fácil, nem difícil, é inútil”.

Começo o texto por Mussolini porque, mesmo tendo sido o ditador medonho e sanguinário que foi, ainda existe gente na Itália que o admira de certa forma. É só conversar com um ou outro italiano na casa dos 60 anos ou mais que a gente percebe uma pontinha de saudosismo e, às vezes, dopo un po´ de vino, até alguma defesa do “crescimento italiano daquela época”.

Mas agora deixemos o vinho e vamos para a terra da caipirinha com coxinha de frango, o Brasil. E vamos começar com outra frase de impacto de um político: talvez a coisa mais interessante que Fernando Henrique Cardoso já tenha falado ou escrito, com aquele jeitão meio pedante meio prolixo que lhe é peculiar, é a seguinte frase: “é preciso virar a página do getulismo no Brasil”. Não sei exatamente quando a frase foi proferida, mas é antológica.

Salada feita, o que “governar é inútil”, Mussolini, getulismo e Robert Pattinson (o vampirinho meio emboiolado de Crepúsculo) têm em comum? Uma coisinha só: são conceitos e pessoas que ajudam a explicar a formação de mitos.

Que Mussolini influenciou Getúlio, isso ninguém tem dúvida: desenvolvimento econômico extremamente impulsionado pelo Estado, industrialização , em especial de indústria de base, peleguismo sindical, formalização ou institucionalização do popular¹ e, principalmente, personalismo.

Getúlio saiu do governo como uma lenda. Um livro que mostra isso de maneira interessante é Incidente em Antares, do Érico Veríssimo, que eu recomendo veementemente para entender a influência do homem no país. Ele foi aclamado, louvado, santificado e até ganhou a alcunha de “pai dos pobres”. Pouco importou para a maioria da população se muitos projetos governamentais foram baseados na política do compadrio, se teve gente perseguida, se o excesso de, digamos, “políticas anti-cíclicas” resultou em processo inflacionário ou em endividamento excessivo do governo, se a industrialização foi pseudo-planejada sem pensar na qualidade de vida das cidades que recebiam as pessoas ou se a Alemanha nazista chegou a ser um dos principais parceiros comerciais do país.


Assim como é inútil governar a Itália, duce, é inútil ensinar o conceito de longo prazo ao brasileiro.  Nós estamos muito mais preocupados com o que vamos ganhar no curto prazo, até por um falta de informação das pessoas, que não aprendem da escola o que significa Selic, apesar de saírem achando que todo mundo que não mora em Higienópolis ou Jardins é “oprimido pela sociedade”.

Mas quem dera fosse só isso, né? Votar ou aclamar em quem melhorou sua vida nos últimos anos, especialmente quando não se sabe o que diabos significa superávit primário, é justificável, mesmo que não muito saudável. Usando mais uma frase célebre de um político conhecido mais por pegar a estagiária no salão oval: “It´s the economy, stupid!”

O problema é que, por aqui, não basta fomentar ou desregular e fazer crescer. O cara tem que ser “carismático”, tem que ser amado, tem que gostar de pegar criança remelenta no colo e ainda dar beijinho na remela. E esse é o mais terrível legado que Getúlio deixou. Político não se elege por competência, político se elege porque “fala a língua do povo”. O jogo político no Brasil é muito mais parecido com uma briga de meninas de 13 anos sobre qual o ator mais bonito de Crepúsculo. Os discursos políticos no Brasil parecem programas da Xuxa na década de 90, quando bandos de pós-adolescentes ensandecidas gritavam “eu te amo” para uma loira de botas no meio da coxa. A sensibilidade de um candidato é medida em termos de mililitros de lágrimas que caem de seus olhos após visitar o grupo de bordadeiras de Ibitinga que fazem tai chi chuan na praça central da cidade. O cara tem que ser um mito.

Pouco importa quais as conseqüências, pouco importa se o que o governo te dá agora vai vir com juros e prestações no futuro, pouco importa se o candidato é competente, idôneo e experiente (não que haja um assim na eleição presidencial, mas....), importa muito mais o fato de o cara (ou a mulher) gostar de abraçar estranhos na rua.

É Mussolini, governar é realmente uma coisa inútil.

1- Ver o livro do Narloch, "Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil"

2 comentários:

  1. Fiquei com fome lendo sobre a coxinha de frango, mas depois me deu indigestão, ao ler o resto...

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  2. Um dos textos mais lúcidos que li nesses últimos tempos! Obrigado.

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