Um que assunto surgiu nos jornais nas últimas semanas chamou minha atenção: a questão dos financiamentos do BNDES. Não que a coisa seja nova, mas parece que finalmente a imprensa decidiu analisar a coisa mais a fundo.
Tentando resumir a situação em linguagem twitterana: quando o governo empresta para uma grande empresa via BNDES, ele está dando um subsídio para essa empresa, ou seja: ele (o governo) está emprestando em juros mais baixos que os do mercado (mais ou menos 6% ao ano). Os motivos alegados são sempre nobres: expandir a internacionalização das empresas nacionais, financiar grandes obras de infra-estrutura no Brasil e em países vizinhos, aumentar a capacidade da economia nacional, etc.
Só que existe um pequeno (grande) problema na coisa toda: para um banco, qualquer banco, ser superavitário (ou seja, “tenha lucro”), ele precisa emprestar dinheiro por uma taxa maior do que capta dinheiro. E como o BNDES capta dinheiro? Em grande parte, por meio da expansão da dívida pública do governo. Já escrevi um pouquinho sobre dívida pública aqui e aqui. O tema é importante porque envolve desde questões essenciais para o crescimento econômico sustentado do Brasil até questões sobre desigualdade social, o que acaba levando a um debate moral e/ou político.
Enfim, voltando à matemática básica do post: titio Bonner essa semana falou no Jornal Nacional que a taxa Selic aumentou 0,5 e está em 10,75% ao ano. O que não sei se o titio Bonner explicou é que a Selic é a taxa de captação do governo, ou seja, são os juros que o governo paga aos seus credores. E só nesse ano, a dívida pública brasileira subiu 8% devido à emissão de títulos, dos quais 80 bilhões foram destinados ao BNDES.
Bom, aí você que está aí olhando essa tela ao mesmo tempo e que olha resultados desastrosos de cirurgias plásticas em subcelebridades (musa Jocelyn Wildenstein) pergunta-se: e eu com isso?
Pois é, querido ou querida, o fato que é que você, mesmo que “ajuste” bonito o seu Imposto de Renda e/ou que ganhe bem mais do que está na sua carteira de trabalho, paga caro por todos os produtos que você consome, do leitinho das crianças até aquela bolsa parcelada em 24 vezes que você comprou mês passado. E ah, se você não precisa ajustar seu IR, porque não ganha o suficiente para isso mesmo, piorou. Porque você gasta uma parte bem maior da sua renda pagando impostos (no Brasil, a maioria dos impostos são regressivos) para sustentar a expansão de empresas que poderiam muito bem estar buscando crédito em outras fontes, como mercado de capitais, bancos nacionais e estrangeiros, etc.
Claro, que sempre existe o argumento: será que essas empresas conseguem mesmo buscar outras fontes? E aí a discussão vai longe, afinal, estaremos falando da relação do que os bancos cobram com a taxa Selic e da taxa Selic com a própria dívida pública do governo. E essa discussão vai ficar para outra hora.
Mas mesmo que não conseguissem (e olha que existe muita empresa grande sobrevivendo sem o BNDES) e que realmente esse subsídio fosse justificado estatisticamente com um motivo nobre como a criação de empregos em território nacional, vale perguntar se é realmente coerente fazer o indivíduo que ganha 600 reais por mês pagar mais caro por uma geladeira para financiar obras na Bolívia e na Venezuela ou para patrocinar a festa do primeiro de maio das centrais sindicais paulistas.
domingo, 25 de julho de 2010
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Interessante seu texto, álias achei seu blog por acaso. Duas coisas para comentar: uma empresa de grande porte pode facilmente achar financiamentos a menos de 6% a.a. em países como Suíça, Japão. Algumas empresas são facilmente capazes de gerar renda sobre o capital emprestado até certa taxa, e é por isso que empresas como Petrobrás, CSN, ao anunciar captação de 30 bilhões conseguem facilmente cartas de crédito de 60 bilhões, por exemplo. Outra coisa seria da necessidade política de tal feita, afinal qual privatização não foi feita com dinheiro do BNDES? É obviamante um assunto a se discutir. Afinal, qual brasileiro, aquele cidadão médio que se assemelha ao Homer Simpson, da qual falou W. Bonner, não acha ótimo que 'suas' empresas se instalem além-mar com ajuda federal?
ResponderExcluirNo mais, um fato a se considerar, é quanto de ganho tributário tal empréstimo em sua contraparte Investimento não gerará de renda extra ao governo? Isso não sei mensurar mas é algo a se observar. Vide o caso das privatizações e a justificativa tributária que as legitimam.
Oi Anônimo!
ResponderExcluirÓtimos questionamentos. Na verdade eu não tenho essas informações e é de se perguntar se esses estudos já foram feitos.
Particularmente, eu concordo que às vezes a coisa precisa de um empurrãozinho (como foi o caso das privatizações), mas as decisões precisariam ser mais pensadas levando em conta o custo/benefício para a sociedade.
Já essa coisa do Simpson tupiniquim adorar e se orgulhar das empresas nacionais (especialmente achar que empresas nacionais públicas são "patrimônio nacional", nunca lembrando-se que elas podem - e muitas vezes dão - prejuízos), isso deveria virar tese de doutorado um dia, de tão complexo que é.
Abs!
Maria Carolina. Concordo sobre a fonte dos recursos do BNDES, porém se as grandes empresas não tivessem esse dinheiro amigo, a indústria brasileira já era. Já teria sido emgolida por outros países que dispõem de dinheiro barato.
ResponderExcluirO mundo é meio cruel mesmo não?!
Mas, enfim, o que eu queria mesmo era tá na sua festa agora! RSRS
beijos lindona!