domingo, 20 de junho de 2010

Classe média brasileira

Muitos blogs por aí gostam de falar de certa classe média brasileira. O problema é que a coisa nos comentários sempre acaba descambando para o “conceito de classe média”.

Este é um assunto que me interessa bastante, afinal, no início do mestrado queria porque queria pesquisar a chamada “classe C”, que é a composta por famílias com renda entre R$ 1000 e R$ 4000 (aprox.)

Meu tema de dissertação mudou, mas não mudou o interesse. Então fiquei sabendo do lançamento de um livro chamado “A Classe Média Brasileira” dos autores Amaury de Souza e Bolívar Lamounier, baseado em duas pesquisas apoiadas pela CNI e pelo IBOPE. As pesquisas são tecnicamente corretas, com amostra representativa e as respostas dos questionários são endossadas por pesquisas qualitativas.  Os autores discorrem um pouquinho sobre a relevância da classe média como ator social e tentam definir o que seria classe média a partir de uma série de critérios. Mas não vou entrar aqui nos detalhes técnicos, ainda que eu recomende a leitura para quem estiver realmente interessado no assunto.

Mas vou colocar alguns highlights da pesquisa que me fizeram chegar à seguinte conclusão: esse país está ferrado.

- A divisão social dos autores, após analisar diversos critérios, acabou sendo: classe média (classes A/B), classe média baixa (classe C), classe trabalhadora (classe D) e classe baixa (classe E).

- 42% dos entrevistados acreditam que não pagam impostos. Na classe E, a porcentagem chega a 55%.

Comentário: Há estudos que indicam que na verdade os pobres é que pagam mais, pois os impostos no Brasil são regressivos. Mas vai explicar o que é imposto regressivo para um indivíduo que mal sabe ler. Fica meio difícil.

- 50% dos entrevistados acreditam que aumentos de preços deveriam ocorrer em limites prefixados pelo governo, 38% acham que aumentos de preços deveriam ser punidos pelo governo e só 11% acham que preços deveriam ficar livres de intervenções.

Comentário: Plano cruzado, governo Sarney, alô? Ninguém se lembra do que aconteceu?

- 22% declaram ser irrestritamente (sim, vocês leram bem) obedientes a seus dogmas religiosos, sendo que dentre os evangélicos essa porcentagem chega a 38%!

Comentário: Assistam ao filme Religulous.

- 25% dos entrevistados das classes A/B são a favor da pena de morte. Na classe E, a pordentagem chega a 41%.

Eu não sei como comentar isso. Às vezes incorporo o Datena porque acho que no Brasil há uma incrível leniência com a criminalidade, todos os tipos de criminalidade. E acho as penas brandas demais em caso de crimes hediondos. Mas sou contra a pena de morte, por princípios. De qualquer forma, não é um dado que indique algo muito progressista.

- Ah, sim. Só 57% dos membros da classe C acham que a democracia é a melhor forma de governo. Na classe E, isso diminui para 40%, sendo que 20% não sabem responder se democracia é melhor ou não.

Conclusão: Sim, estamos ferrados.

5 comentários:

  1. Totalmente excelente o texto!
    E estamos totalmente ferrados num futuro próximo... ou não.

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  2. Eu tenho o terceiro grau completo, não faço a mínima ideia do que seja imposto regressivo, e nem saberia dizer se o governo deve intervir ou não em aumento de preços...sou ignorante por causa disso? Sou a classe "média" ignorante? Acho que seus critérios seriam extremamente válidos se todo cidadão devesse ser sociólogo...mas não são (e diga-=se de passagem, felizes de nós que não temos como vizinhos nenhum sociólogo)... E por fim, liberdade de crença é um fato em uma sociedade pluralista, claro que com certos limites. Se a pessoa quiser seguir irrestritamente a religião dela, desde que não tente impor em absoluto a sua visão aos outros e à sociedade em geral (que não queria implementar a sua religião no sistema político) qual problema?

    Esse papinho de dar risada do "povo" por não saber isso e aquilo não cola muito com alguém que deveria justamente compreender isto, e não debochar.

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  3. Olá Adriana

    Imposto regressivo, em linhas gerais, é aquele que é mais pesado para os pobres do que para os ricos. Basicamente, se em uma cesta de produtos, paga-se 40 reais de imposto, esses 40 reais pesam muito mais para alguém que ganha 400 (10% do salário) do que para alguém que ganha 4.000 (1% do salário).

    E não saber isso não te faz ignorante. Mas mostra como nosso sistema educacional é maluco. Eu sei isso porque estudei economia na universidade, mas, convenhamos, uma coisa que envolve tanto nosso cotidiano deveria ser ensinada no ensino médio (que boa parte da população não frequenta/frequentou). Mas no ensino médio, ensinam uma mistura de Marx com Rousseau e ninguém sabe o quanto paga de imposto.

    Quanto à religião, bom, cada um com sua crença, mas quanto mais gente fundamentalista, mais deputados que querem menos laicidade e, portanto, mais tentativas de misturar religião com política nas leis.

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  4. Ótimo texto...apesar de achar que estamos num "beco sem saída" vejo as coisas de uma maneira um pouco diferente: coloque-se no lugar daqueles citados como classe E. Não chega educação, não chega saneamento básico, não exite qualidade alimentar, não há saúde. E televisão chega? Ah televisão tem bastante. Ai vc liga a tv e assite o que? Quer ser "o cara"? Tenha dinheiro, não importa como, mas tenha. Quer ter todas as mulheres? Tenha dinheiro e compre da marca X. Vc quer ser fodão? Tenha dinheiro e compre o tênis da minha grife. Ai o malandro vai pesquisar quanto custa o tênis, e vê que teria que trabalhar meses pra ter um par. Mas o que são meses de trabalho pra andar "na moda"? Dai faz o currículo e corre atrás de emprego. Não consegue, ele da classe E tem em média entre 5-7 anos de educação formal, não tem capacitação mínima e num mercado tão disputado não consegue uma vaga. Volta pra casa desacreditado senta numa praça, e repara nas pessoas, flagra em um tipo específico: de fuzil na mão usando roupas daquela marca que ele tanto quer, usando o tênis que ele tanto deseja. Entra pro tráfico, e em menos de um mês ele conquista tudo aquilo que ele nunca teve e na televisão disseram que era o "necessário" pra uma vida "saudável". Esse cidadão, inconscientemente cansou ser massa de reserva para grandes corporações, cansou de ser "recurso humano" de reserva para companhias que o contratarão assim que a demanda aumentar( fica esperando, otário!). E foi resolver da maneira dita como "a mais fácil". Definir esse comportamento como o "mais fácil" é muito simplório pra quem não passou um dia de fome ou de frio, ou por muitas vezes se viu com uma leve gripe mas não tinha condição de comprar um antigripal de R$5. Nessa mistureba toda eu nem acrescentei o fator "polícia", que através de relatos de alguma comunidades diz ter o comportamento dito violento. Apesar de não ser comprovada por pesquisa tenho uma idéia do Sr. Classe E: analfabeto, desnutrido, desinformado, desempregado, psicologicamente inferiorizado pelo ambiente e por muitas vezes armado( no RJ até os dentes!). Na minha opinião é a característica perfeita para um personagem intagível que explode diariamente nas manchetes dos principais jornais. Lê-se: "Morto em troca de tiros com a polícia o Super-Traficante da favela XYZ, com isso se quebra todo uma quadrilha que agia na região ABC". Estampa a cara do sujeito com um tiro de FAL 762 na capa do jornal, ai quem lê sente por dentro um alívio: Pô a polícia ta trabalhando mesmo! Uma ova! O que acontece logo em seguida, o tráfico ali continua e alguem toma posto daquele que foi morto.Pra que serve esse personagem? Coesão social. Boa parte das pessoas que conheço é treme ao ouvir a palavra violência. Esse personagem só serve pra fazer a rodar girar, hoje vivemos e a sensação é de que não saimos do lugar. Eu que sou o mais bocó consigo ver pelo Google Earth plantações e plantações de maconha em Pedro Juan Cabalero no Paraguai. Por que ninguem bota a cara lá e acaba com tudo. 46% do PIB da Bolívia vem da coca. Mas isso não vende jornal, e não trás o tal alívio imediato. O "correto" é matar aquele bucha da favela lá, niguém conhece msm...

    É só uma linha de pensamento que quero começar a pesquisar, mas meses venho tentado porém não consigo sair da primeira linha.

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  5. Olá Ricardo.

    Obrigada pelo comentário.

    Então, a sua linha de argumentação é um ponto de vista. Não digo que certo ou errado, mas é um ponto de vista. Na verdade, para entendermos uma "raiz" da violência urbana no Brasil, acredito que teríamos de desenvolver uma pesquisa mais abrangente. Isso envolveria estudar uma série de fatores, tais como cultura, sub-cultura, relacionamento das classes baixas com marcas (se é que isso é fator desencadeador), estrutura familiar dos criminosos, benefícios econômicos (em termos de risco-retorno) dos crimes, etc.

    Eu tenho alguns textos que publiquei sobre isso aqui no blog. Não sei se concordo com eles inteiramente hoje em dia (mestrado faz a gente repensar muita coisa), mas não acho que somente uma linha de raciocínio explica a coisa toda.

    No livro que citei nesse post, aparece que maior medo das famílias de classe E é a violência urbana. Ou melhor, medo dos filhos dos entrevistados caírem nessa coisa de tráfico de drogas. Isso é um começo e um indicativo.

    Enfim, eu sugeriria que antes de você começar a pesquisar nessa linha, você olhasse comparações internacionais de índices de violência, violência sob a ótica econômica e também sob a ótica antropológica.

    Assim você analisa outros paradigmas que saem da máxima "o oprimido (considerando que é oprimido) pelas empresas (considerando que as empresas seriam as opressoras e não outros entes como o próprio governo) se torna violento porque não tem o que quer (considerando qual a relação dele e o que ele quer)".

    Abs

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